Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

casal mistério

Ele cozinha, ela viaja. Quando estão fora, testam e avaliam restaurantes, bares e hotéis. Quando se juntam em casa, escrevem sobre o que viram: o bom, o mau e o péssimo.

crepes blinis com natas e caviar (ou alguma coisa muito parecida com isso)

 

O caviar dos pobrezinhos

 

Ingredientes:
1 frasco de caviar Tzar
1 pacote de crepes blinis
1 pacote de natas

Já estou a ver o stress no ar: dia 31, passagem de ano em sua casa, é preciso alguma coisa especial para o jantar, não comprou nada e não tem paciência para passar as últimas horas de 2013 emigrada na cozinha. Quer ideias? Nós temos ideias. Meta-se no carro, pegue numa nota de 20 euros e vá até ao supermercado do El Corte Inglès. Vai ver que traz uma boa entrada e ainda umas moedas de troco. Tudo isto graças à mais nova e sofisticada imitação de caviar. Chama-se Tzar, é produzida na Rússia, só com recurso a produtos naturais (marisco, carapau, salmão) e tem autorização para utilizar a designação caviar. Ou seja, é caviar mas não é de esturjão, é bom mas não é um Beluga, é barato mas não tem químicos.

Com dez euros traz um frasco com mais de 100 gramas. O resto serve para comprar uns crepes blinis (aqueles muito pequeninos com a grossura de uma minipanqueca) e um pacote de natas. Mesmo antes de servir, aquece os crepes no forno ou no microondas, junta-lhes as natas batidas por cima e depois o caviar. No fim, ainda lhe sobram as moedas de troco para saltar à meia-noite com os bolsos cheios. Não é o caviar que se come em casa de milionários como Ricardo Salgado, Bill Gates ou José Sócrates, mas sempre é caviar - ou quase.

E já agora, um bom Ano Novo para si, onde quer que esteja,

Ele

furnas do guincho, um restaurante com um peixe fantástico e uma vista maravilhosa

Um jantar com a sogra? Por favor, chamem o INEM. Um jantar com a sogra e com o marido da sogra, que não é o sogro? Meu Deus, podem começar a massagem cardíaca. Um jantar com a sogra e com o marido da sogra, que não é o sogro, no restaurante Beira Mar em Cascais? Apaguei de vez - pode entrar o coveiro. Nesta fase da tragédia, só há uma maneira de me ressuscitarem: a alteração de um destes três factores apocalípticos. E por uma feliz coincidência, isso aconteceu a poucas horas do mergulho no abismo: o Beira-Mar estava fechado até ao dia 21 de Dezembro. E foi assim que, em estado pré-comatoso, entrei nas Furnas do Guincho.

O ambiente

Do meu lado esquerdo, um grupo de 20 turistas homens, fardados com blazer e camisa sem gravata, a beberem vinho com se estivessem a beber água. Do meu lado direito, um casal de turistas, a beberem vinho como se estivessem a beber uma marguerita. Atrás de mim, uma familia de turistas, a beberem água como se estivessem a beber vinho. À minha frente, mar, muito mar. Esta é a parte boa das Furnas do Guincho. Apesar de a média de idades rondar os 60 anos e do alemão ser língua mais falada, há uma esplanada com uma vista soberba sobre o mar. É claro que nesta altura do ano a esplanada não é para usar, mas é para isso que existem janelas. E aqui janelas não faltam. A decoração está ao nível da média de idade dos clientes e do bom gosto de Angela Merkel para se vestir. 

A ementa

O pão é básico, as tostas são grossas e a broa embucha. Não há azeite na mesa, nem patés ou qualquer outra frescura. Aqui é tudo à antiga. E isso nem sempre é bom. Especialmente quando o couvert básico contrasta com a decoração pretensiosa. Mas há sempre umas gambas razoáveis para picar e, no Verão, uns percebes bonzitos.

 

O peixe 

Não vale a pena vir aqui para comer um bife. Este é um restaurante de peixe, bom peixe, óptimo peixe. Especialmente se o pedir ao sal. Neste dia de sacrifício, o marido da sogra comeu uns filetes de cherne com sala russa (quem é que vai a um restaurante de peixe comer filetes de cherne com salada russa?!) e a sogra pediu uma paelha (o que à partida pode parecer um absurdo, mas depois se revelou uma surpresa, com o arroz solto e molhado em azeite). Eu preferi não inventar. E não inventar aqui é pedir um robalo do Guincho ao sal. O peixe estava fresquíssimo e cozinhado no ponto, que é o mesmo que dizer suculento e a dividir-se facilmente em lascas. Falha: o peixe vem apenas com molho de azeite e alho, falta claramente o molho tártaro e o molho holandês, que nem a pedido conseguiram fazer. 

A sobremesa 

Nesta área não pode haver dúvidas. Tem de pedir a mousse de avelã, uma receita caseira tradicional de Cascais, feita há duas gerações pela familia Arouca para os principais restaurantes da região. O segredo está na mistura de um chocolate pouco doce a envolver um nogat maravilhoso de avelã. Imperdível! O serviço Apesar de estarem encantados com a mesa dos turistas de blazer sem gravata, os empregados foram eficientes e simpáticos. É uma vantagem destes restaurantes junto ao Guincho: há sempre mais empregados do que é realmente preciso. E, no caso das Furnas do Guincho, nem tem de pagar o absurdo que paga, por exemplo, no Mar do Inferno ou no Porto de Santa Maria. Continua a ser demasiado caro, mas neste caso esse até foi um problema do marido da sogra. Ninguém lhe mandou pedir a salada russa...

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

bolo do caco hamburgueria gourmet

 

Mesa para dois

 

O ambiente

Imagine um Mini com mesas de jantar lá dentro. Sentir-se-ia confortável? Vai sentir-se. Quando a decoração tem a ver com o espaço, a área é apenas uma questão de perspectiva. E aqui tem de ir preparado para o que vai encontrar. Primeiro, este é um restaurante para almoçar, não é um sítio para jantar - o espaço é minúsculo e as cadeiras não são confortáveis. Depois, este é um restaurante para ir aos pares - se for sozinho vai ficar absorvido pela conversa do lado; se for em grupo arrisca-se a ficar sentado ao colo de uma colega (ou de um colega, o que pode ser ligeiramente mais desagradável, dependendo das perspectivas). Depois, este é um restaurante para marcar mesa - não arrisque porque não vai correr bem.

Se tiver a sua perspectiva acertada nestes pontos, vai gostar. Só precisa de não querer aquilo que este restaurante não é. É como o Mini: é um carro trendy, engraçado, bonito e no qual sabe bem andar - mas não é um carro de luxo, nem um carro para a família. O Bolo do Caco é igual: é um restaurante trendy, engraçado, bonito e no qual sabe bem estar - mas não é um restaurante de topo, nem um restaurante para jantar. A decoração é moderna, o espaço é acolhedor, o ambiente é animado.

Quando nos sentámos, tivemos a sorte de ficar esmagados entre um casal silencioso, mais interessado na nossa conversa do que na deles próprios, e dois amigos empenhados em discutir marcas de artigos desportivos e computadores de última geração. Ou seja, a companhia poderia ter sido pior.

 

 

O serviço

Desde que fui descomposto pelos empregados do English Bar, no Estoril, por ter ousado ir ao restaurante no dia 1 de Janeiro, quando eles estavam estafados da festa na véspera, que dou graças a Deus quando sou bem recebido no dia a seguir ao Natal e ao Ano Novo. E aqui tivemos sorte. No dia 26 de Dezembro, quando metade dos donos dos restaurantes de Lisboa estavam a desintoxicar das filhoses e das rabanadas em excesso, os empregados do Bolo do Caco estavam felizes por estarem abertos. Ou, pelo menos, pareciam. Na quinta-feira, não tínhamos marcado. E, mesmo assim, conseguimos mesa. Com boa vontade e um sorriso - o que, hoje em dia, é raro. O restaurante não tem menu - está tudo escrito a branco nas paredes pretas -, o que acelera logo uma boa parte do serviço. E a comida vem rapidamente e sem erros - o que, hoje em dia, é ainda mais raro. As alterações aos pratos; o "um pouco mais de gelo, se faz favor"; ou o "se não se importa, trazia-me uma Coca-cola enquanto escolhemos" são encarados com naturalidade. Aqui serve-se como deve ser: sem simpatia a mais e sem eficiência a menos. 

 

A ementa

 

Couvert

O pão não é brilhante: está entre o pão de forma Bimbo e o pão de sementes artesanal - é escuro, mas é mole demais; tem côdea, mas é um pouco emburrachada. O azeite vem com um xarope de vinagre balsâmico demasiado espesso e doce. Mas as azeitonas são pequenas, tenras, saborosas e nada ácidas. Resumindo, não é fascinante mas escapa.

 

Os pratos principais

Aqui tudo tem bolo do caco. E quase tudo é elaborado com cuidado. Experimentámos o hambúrguer de salmão e o hambúrguer tártaro. Primeiro, os crus. O tártaro estava bom, mas não é fabuloso. Vem com alcaparras e carne fresca e saborosa, é grande e tem mostarda a acompanhar, mas falta-lhe algum detalhe que o torne especial. E esta é que é a diferença entre um bom restaurante para almoçar, como esta hamburgueria, ou um excelente restaurante para jantar, como o Talho de que falámos há uns dias: os detalhes que surpreendem. A única crítica é em relação às batatas fritas: um pouco grossas demais e moles.

Agora, os cozinhados. O Salmão Burger é a melhor solução para quem passou as últimas 48 horas a comer bacalhau, peru, couves, rabanadas, queijos, mais bacalhau, mais peru e mais tudo. Pelo menos é um prato que finge ser light. Com cebolinho, rúcula e tomate, vem por baixo de um molho tzatziki, de origem grega, à base de iogurte e pepino. É um molho leve e fresco e, juntamente com o cebolinho, ajuda a desenjoar da gordura do salmão. Mas o melhor deste prato - e provavelmente de todo o restaurante - é o acompanhamente: umas chips de batata doce, cortadas à grossura de uma folha de papel, extremamente estaladiças e sem um pingo de gordura a mais. Todos os acompanhamentos são servidos em tachinhos miniatura cinzentos, o que para quem, como eu, já não aguenta a moda das ardósias, representa uma bafurada de ar fresco numa tarde caribenha.

E porque era dia 26 de Dezembro, os doces tiveram de ficar para outro dia - ao almoço, claro.

 

 

Um bom fim-de-semana para si, onde quer que esteja,

 

Ele

salada de burrata com tomate, trufas e pinhões

 

Minhas queridas senhoras tão preocupadas com a linha,

 

Da mesma maneira que o calor do Verão não é motivo para virarem vegetarianas, o frio do Inverno não é desculpa para ostracizarem as saladas das vossas vidas. Temperaturas abaixo de dez graus não têm de ser sinónimo de chouriço assado a pingar gordura em cima de uma canoa de barro. Isso também é bom. Mas o Inverno não tem de ser só isso. Feita a introdução, aqui vai uma dica de salada para depois do Natal ou para um Ano Novo vegan. Primeiro, a matéria-prima. Tomate que é verdadeiro tomate vem da horta. Da sua ou da de alguém. Por isso, se não tem um pequeno tomateiro em casa (não fiquem abespinhadas que não é assim tão difícil), arranje uma daquelas empresas de cabazes biológicos e encomende tomate cherry. Corte os tomatinhos ao meio e coloque-lhes em cima burrata às fatias (qualquer semelhança com mozarella é pura coincidência - esta pode ser comprada em qualquer mercearia melhorzinha) e uma folha de manjericão (se for da horta, melhor).

A seguir, tempere com azeite, vinagre balsâmico e flor de sal. E depois dê-lhe o toque de Inverno: umas raspas de trufa (as nacionais, são bastante piores, mas estão à venda no Jumbo por um preço acessível) e um pouco de azeite de trufa. Como já temperou com o azeite normal, basta pôr um bocadinho de azeite de trufa para dar sabor. Mesmo antes de servir, polvilhe com pinhões. O resultado... bom, o melhor é ver pela fotografia.

 

Como dizia o outro, um bom fim de ano para si, onde quer que esteja,

 

Ele

natal

 

 

O nosso Natal é uma loucura de almoços e jantares. Começamos a 24 às 13h00 e acabamos dia 25 à meia-noite, tudo isto numa correria de um lado para o outro: casa da mãe, casa da sogra, casa da tia, casa do sogro, carregados de crianças, presentes, vinho e bolo-rei. A azáfama é tal que não vamos conseguir aproximarmo-nos sequer de um computador. E se tentar tocar no Ipad ou no Iphone, corremos o risco de ser olhados de lado por toda a família. Mas depois do bacalhau, do perú, dos sonhos, das rabanadas, e muito mais, vezes quatro (ufa!), voltamos com uns quilos a mais e cheios de novas ideias, boas receitas e mais críticas mistério...

Até dia 26!

 

Feliz Natal!

 

Por Ela

mercy hotel

A ideia era passar uma noite romântica em Lisboa, com direito a um jantar a dois, a um concerto e a uma noite de copos. “No mercy”, sem crianças. Talvez por isso, a nossa escolha tenha sido inspirada: o Mercy Hotel, no Chiado. Como o próprio nome indica, situa-se na rua da Misericórdia, aquela frenética artéria “super in” que liga o Príncipe Real ao Largo Camões.

 

 

 

Optámos por um Quarto Cosy, e o nome não poderia ser mais adequado. O quarto é, de facto, cosy, até demais... Aliás, tudo no hotel é cosy. Da receção ao elevador, do corredor ao bar, até chegarmos ao quarto, tudo é claramente digamos... que aconchegante. Com uma decoração em tons quentes (castanhos, dourados e cinzentos), todo o hotel se apresenta em forma de presente aos hóspedes. Mal entramos no lobby, é impossível não reparar nas gigantescas fitas douradas que percorrem todo o teto da receção quais ondas esvoaçantes.

 

 

 

Mas a cereja no topo do bolo, no que toca a apontamentos dourados, são as portas dos quartos com as ditas fitas com uma enorme laçada ao centro que só apetece desembrulhar. Contive-me porque estávamos acompanhados pelo senhor das malas que, diga-se, não podia ser mais prestável. Depois de nos mostrar todos os cantos e recantos no nosso imenso quarto cosy, fez questão de nos explicar detalhada e demoradamente que, para acedermos à password do Wi-Fi do hotel, teríamos de ligar o comando da TV, pressionar o botão do Menu e pasme-se: carregar na palavra Wi-Fi! Pelo sim, pelo não, explicou-nos o procedimento duas vezes, não fosse o caso de não termos percebido à primeira. O quarto é pequeno mas muito confortável. A casa de banho, toda preta, tem muita pinta. E depois de uma tarde de compras e um duche retemperador, jantámos no fantástico restaurante do hotel, o famoso Umai, do chef Paulo Morais. O jantar – irrepreensível – merece um post à parte.

 

 

O concerto foi excelente e acabámos a noite no bar Park no topo de um parque de estacionamento na calçada do Combro. O regresso ao hotel, por volta das duas da manhã, foi uma bênção... porque isto de dormir em hotéis é muito agradável e romântico mas não há pior do que ter de acordar cedo a tempo do pequeno-almoço. E no Mercy, as portas fecham-se às 10h30! Pelo sim pelo não, decidimos pedir o pequeno-almoço no quarto... que provou ser definitivamente cosy e a cama cinco estrelas, com lençóis e almofadas de luxo. A noite foi de sonho só interrompida por uma pancada tímida a anunciar o room service com o nosso pequeno-almoço que diga-se, era bom mas não espectacular: o café e o leite já vinham misturados (qual galão morno dentro de uma cafeteira) e o sumo de laranja não era natural... mas cumpriu os mínimos.

 

 

Resumindo: bom, simpático, ideal para uma noite bem passada no coração da movida lisboeta...mas não é inesquecível.
Ah! E não se assuste se tropeçar em vários manequins espalhados pelo hotel. Sentados num sofá, em pé, a conversar ou simplesmente a olharem para nós. Fazem parte da decoração e usam peças da última coleção de uma conhecida estilista portuguesa. Uma ideia original mas um tanto ou quanto... creepy.

 

 

 

 

Por Ela

vivó inverno a saber a verão

Percebes

 

 

 

Às 17h11 começou oficialmente o Inverno. E a melhor maneira de comemorar o evento é a relembrar o Verão. Desta vez, não saí de casa para comer fora. Com 16 graus na rua, vesti uma T-shirt e meti-me no carro a caminho do Coolares Market, um óptimo sítio para fazer as últimas compras de Natal. Pouco antes de chegar à Quinta do Pé da Serra, há um largo à esquerda onde costumam estar umas bancas com produtos caseiros. Se chegar antes da hora do almoço e se a maré ajudar, é provável que encontre percebes frescos acabados de apanhar na praia da Adraga. Depois de os conseguir, o resto é fácil. Passe-os bem por água para tirar a areia e ponha uma panela de água a ferver cheia de sal - para um quilo de percebes, pouco menos de meio quilo de sal. Quando a água estiver a ferver, deite os percebes lá para dentro e tape. Mal voltar a levantar fervura, apague o lume. Em menos de cinco minutos está de volta ao Verão e à praia. E tudo isto por 10 euros. Sem precisar de aturar empregados mal dispostos em restaurantes da moda.

 

Um bom Inverno para si, onde quer que esteja,

Ele

bulldog e o tribunal constitucional

A bebida ideal para ouvir juízes

 

 

 

 

Era aquele senhor com voz de elefante e pronúncia de Mota Amaral a entrar pela televisão e eu a sair pela cozinha. Hoje em dia, política sem álcool é como muamba sem gindungo - ou, como diria o Jorge Perestrelo, é como futebol sem golos. Ouvir o Tribunal Constitucional obriga-me a preparar um gin; ouvir o Passos Coelho, dois; o Paulo Portas, três; e quando chega o Seguro, o melhor é beber logo pela garrafa. Mas aquele juiz com uma capacidade de dicção ímpar, uma voz envolvente e uma queixada de fazer inveja ao Mutley fez-me lembrar algo um pouco mais sofisticado - este é um momento para um Bulldog.

- Peguei numa laranja, num limão e numa toranja que tinha acabado de receber no meu cabaz de legumes e frutas da horta e cortei uma fatia comprida da casca de cada um.

- Juntei-os num copo de gin cheio de gelo e misturei um pouco com uma colher torcida.

- Depois deitei um cálice de gin Bulldog e continuei a misturar.

- A seguir deitei uma água tónica Schweppes Premium Pimenta Rosa cuidadosamente através da colher e voltei a mexer.

Depois de tudo isto, bebi. E bebi. E bebi. No fim, parecia que Portugal é que tinha acabado de emprestar 73 mil milhões de euros à Alemanha para esta sair da crise.

 

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

porto tónico

A companhia perfeita para ver o Benfica

 

 

  

Quem é que disse que o Benfica só pode ser visto com uma garrafa de cerveja na frente e um prato de tremoços na boca? Desde que o Jorge Jesus esteja na bancada, em vez de estar em cima do lombo de um polícia, o futebol não tem de ser assim. A suada vitória deste domingo, frente ao poderoso Olhanense, foi assim: três cálices de Quinta do Noval extra seco, uma rodela de limão, uma garrafa de água tónica Thomas Henry e muito gelo. Isto estava dentro do copo. Dentro da taça, um saco de amêndoas com sal. E agora podem soltar o Jesus, que já estamos preparados para tudo.

 

Um abraço para si, onde quer que esteja,

Ele

o talho, um dos melhores restaurantes de lisboa

11036528_700828010044758_3133830531945546655_n.jpg

O ambiente

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena desgraça. Primeiro, o nome: alguém, no século XXI, quer ir a um restaurante onde só se sirvam costeletas grelhadas? Depois, o guarda-roupa: alguém, que viu o Star Trek quando ainda andava de calções e meias até ao joelho, quer ser recebido por um empregado com um intercomunicador no ouvido igual ao do capitão Kirk? Finalmente, a localização: alguém, que não se tenha divorciado há três meses, quer ir jantar a um restaurante que fica exactamente entre o El Corte Inglés e o bar Nocturno 76?

Eu sei que é difícil ultrapassar todos estes preconceitos numa única noite, mas, por favor, tente. E, se não conseguir, tente outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra. Até ser capaz. Primeiro, porque O Talho – apesar do nome desastroso e da tabuleta em neón – não serve costeletas grelhadas. Serve alguma da melhor e mais elaborada carne que se vende em Lisboa. Depois, porque o capitão Kirk é um dos mais simpáticos e eficientes empregados do distrito. E finalmente, porque hoje em dia quase qualquer carro tem alarme – e resiste a duas horas estacionado naquele sítio. Só para o caso de ainda não ter ficado convencido, porque aqui o ambiente é relaxado, sofisticado e com um enorme bom gosto. Do mini-bar de gin onde pode esperar pela sua mesa, à decoração cuidada e despretensiosa, passando pela clientela e pelos detalhes: o corredor para as casas de banho é uma adega com charme e os lavatórios são blocos de pedra rústica. 

1146514_605618229565737_3250866867948483162_n.jpg

A ementa

Aqui estão reunidas todas as condições para uma pequena surpresa. O chef passou um ano a viajar pelo mundo, ficou instalado em casas particulares e aprendeu a cozinhar com as famílias. Isto depois de ter passado por França e pelo Eleven, onde aprendeu o resto. O resultado é uma mistura de genuinidade com sofisticação. Uma mistura de tradição com imaginação. Uma mistura de vintage com moderno. No fundo, uma mistura de Capitão Kirk com Avatar. Quase tudo é óptimo. Algumas coisas são geniais. Muito pouco é vulgar.

11146571_699444426849783_5739552757149353416_n.jpg

As entradas

No que comemos, só um dos aperitivos falhou: Uma fatia de bacon por cozinhar com vinagre agridoce e beterraba ralada. Foi a primeira e não resultou. Mas foi a única. O segundo aperitivo foi excepcional: um ovo escalfado a baixa temperatura, no ponto ideal, rodeado de farofa de bacon frita e estaladiça, leve e surpreendente que, em vez de uma farinha, parece flocos de neve.

Além de óptimo, o segundo aperitivo serviria como uma fantástica entrada em qualquer restaurante de semi-nouvelle cuisine.

Até as entradas, que poderiam parecer normais, conseguem surpreender. O bloco de foie gras corado em sal é apenas bom, mas o facto de vir acompanhado por um mini-croquete de chocolate e uma mini-madalena sobre doce de laranja faz toda a diferença. É como ter o dr. Spock com a cauda do Avatar. A ceviche de novilho com mousse de batata doce é arrebatadora.

11152349_700828753378017_4039592167887929530_n.jpg

Os pratos principais

Se ainda conseguir chegar aos pratos principais, por favor, divida. Aqui vale a pena experimentar tudo o que puder. O bife tártaro vem acompanhado com maionese de rábano e um pouco de mostarda montadas uma sobre a outra como se fosse um ovo estrelado rebentado. Ao lado tem um shot de vodka para misturar com a carne. Depois de mexer tudo, enrola o resultado final numa alga japonesa de sushi. É tudo bom. E é todo bom.

A seguir prove a barriga de porco cozinhada durante 18 horas num recipiente de barro em banho maria. Vai depois a tostar a pele e vem acompanhada por uma massa de pevides cozinhada com tinta de choco e molho de berbigão. Do lado direito, há uma espuma de alho; do lado esquerdo, uma espuma de wasabi. Fabuloso! É evidente que não deu para sobremesas.

O serviço

É claro que em qualquer restaurante da Lisboa moderninha, o chef seria um pedante insuportável. Mas não aqui. Ele chama-se Kiko, sorri para os clientes e fala de comida, de viagens e do Mundo com a mesma alegria com que um miúdo finta um colega na escola e marca golo. Ele gosta do que faz e isso nota-se no resultado final. O capitão Kirk controla toda a sala como Ronaldo controlou o jogo de Portugal contra a Suécia. E tem uma vantagem em relação ao avançado do Real Madrid. É tão competente como simpático e modesto. Este é claramente um restaurante onde cozinheiros, chef e empregados gostam de estar. E onde os clientes têm tudo para concordar.

10408149_686771021450457_5751587022189181269_n.jpg

O bom 

A simpatia de toda a gente

O mau 

A placa de neón à porta

O óptimo 

A comida, em especial o bife tártaro

 

E só para acabar, um abraço para si onde quer que esteja,

Ele

sea me

O serviço 

Faça-me um favor: leia esta frase em voz alta e dê um grito de desespero comigo: “POR QUE RAIO É QUE A MAIORIA DOS EMPREGADOS DE RESTAURANTES EM PORTUGAL TEM DE SER TÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕ FRAQUINHA?! PORQUÊ?! PORQUÊ?! POOOORQUÊEE?!” Ok. Agora está mais relaxado? Eu estou. E depois de ter ido jantar ao Sea Me Chiado, na rua do Loreto, em Lisboa, era tudo o que precisava de fazer.

Chegados mesmo em cima da hora, a mesa reservada não estava pronta. Não há um pedido de desculpas. E não há problema: o restaurante tem um bar onde se consegue esperar. Mas afinal há problema: o restaurante tem um barman que não consegue sorrir.

Resolvido o embaraço inicial – eu sorrio, ele não sorri; eu cumprimento, ele não responde; eu pergunto se tem vinhos a copo, ele entrega-me a lista; eu tento perceber se ele é mudo, ele rosna – ficamos em pé a beber uma flûte de Murganheira bruto e a petiscar qualquer coisa.

Meia hora depois, a mesa está pronta e a nova empregada está a sorrir. Problema ultrapassado? Nem por isso. Depois de pedir três entradas, em vez de um prato principal, chegam duas. E com elas, um novo empregado – de óculos de massa, cabelo rapado e ar de intelectual incompreendido.

- Peço desculpa, mas falta um prato.

- [Sobrolho franzido]

- Falta um prato.

- [Sobrolho franzido novamente] Qual prato?

- Já não me lembro bem. Era uma salada, mas foi a sua colega que ma recomendou.

- Ela já não está.

E é aqui que o meu cérebro entra em tilt: “MAS PORQUÊ EMPREGADOS TÃO MAUS?????????!!!!!!!!!” É assim tão difícil ser competente no mundo da restauração?

A ementa 

A salada, afinal, era de caranguejo real. Que é o mesmo que dizer algo muito parecido com delícias do mar com um bocadinho mais de sal. De resto, vieram umas ostras da Ria Formosa – se já as comeu em Cacela-Velha, no tasco do largo da igreja, não vale a pena passar pela desilusão – e umas vieiras coradas com tártaro de manga e flor de sal – estavam bem cozinhadas, mas o molho era demasiado doce, o que retirava o sabor a mar. Antes de termos ido para a mesa, petiscámos ao balcão uns bombons de atum, mozarella, basílico e sweet chili perfeitamente indiferentes. Para acabar, o doce: a Maria Bolacha tem um nome apetitoso, mas um sabor enjoativo. 

Só mais uma irritação para completar a noite em grande: começámos por pedir rolinhos de robalo recheados com presunto e mozarela, mas não havia – o forno estava com um problema. De facto, pode ter sido um dia azarado, mas é sempre de desconfiar de tantas coincidências.

O ambiente 

O restaurante estava cheio para um dia de semana, o ambiente animado e o barulho ensurdecedor. Se isso não o incomodar, este é o sítio certo. De quinta a sábado, ainda há mais barulho com um DJ residente – no dia em que lá fomos, escapámos. A decoração é moderna, os detalhes estão bem cuidados, mas a confusão é tanta que não dá para prestar atenção a tudo. No meio de tantos azares, nem deu para ir à casa-de-banho ver como era – uma obrigação hoje em dia.

 

Nota final: chamar Chiado à rua do Loreto é como chamar Leblon à favela do Vidigal.

 

E agora resta-me mandar um abraço para si onde quer que esteja,

Ele


 

mercado de campo de ourique

 

Este mercado não é para velhos…nem para crianças

 

Mercado de Campo de Ourique. Sábado, 21h.

 

Estávamos cheios de curiosidade de espreitar a primeira versão portuguesa do mercado de São Miguel em Madrid. Por isso, decidimos arriscar uma visita logo no primeiro fim de semana depois da abertura. Previmos o caos. E confirmou-se o caos. Pior: levámos a tiracolo a nossa filha pré-adolescente que ficou mais ou menos em estado de choque: “oh mãe, isto é que é sair à noite? Nunca vou sair à noite!”. O mercado estava a abarrotar de gente mas apesar da densidade populacional, estava um frio de rachar. E nem a maralha nem os poucos cogumelos espalhados pelo espaço serviram para aquecer o ambiente. As filas eram de tal forma intermináveis que decidimos dividir-nos. Cada um com a sua hercúlea tarefa: ele na charcutaria, a nossa filha nas bebidas e eu no sushi. Sempre com a ladainha de fundo: "Com licença, com licença!", "Esta mesa está ocupada?", " Posso levar esta cadeira?" Quarenta minutos depois reencontrámo-nos para juntar forças para a próxima batalha: encontrar uma mesa vazia. Detalhe: sem mãos para degladiar, já que estávamos carregados com uma pirâmide de petiscos e sushi, e tabuleiros são um luxo por aquelas bandas. Nova separação familiar. Batalha perdida. Valeu-nos um recanto de um balcão ainda por arrendar que a nossa preciosa filha ocupou com unhas e dentes enquanto nos ligava desesperadamente por telemóvel: “Mãe, pai, corram! Estou no terceiro corredor ao pé da fruta, debaixo de um monte de gente.” Nova corrida, com petiscos numa mão, garrafa de vinho e copos altos na outra. Novo reencontro familiar. Lá petiscámos em pé, esganados de fome e estoirados qual soldados nas trincheiras. Estava tudo ótimo mas o nosso pensamento era só um: “fugir dali o mais rapidamente possível!”

 

O Bom:

 - o conceito de vaguear pelo mercado e petiscar aqui e ali é divertido, sobretudo para a faixa etária dos 20, que não se importa nada de estar horas em pé. E é um ótimo ponto de partida para uma noite de copos

- todo o espaço do mercado ficou muito giro depois de remodelado

- a decoração das tasquinhas/bancas de petiscos está engraçada

- a oferta é diversificada: charcutaria, marisco, sushi, hambúrgueres, crepes, etc., e boa.

 

O Mau e o Péssimo:

- há vinte mesas para centenas de pessoas

- petiscar aqui e ali é muito giro mas é escusado as bebidas serem também à parte

- as filas intermináveis

- a ausência de tabuleiros

- o frio de rachar

 

Por Ela

 

decadente, uma experiência inesquecível

 

 

Mesa para seis pessoas, restaurante Decadente, Lisboa

 

O serviço

- Olhe, desculpe. Esqueceu-se do meu copo. 

- Hmm... É que... Pois... Não sei se temos copos de vinho tinto lavados... 

- E então?...

- pois... Hmm... Deixe-me ver se lhe arranjo um

[mas o homem está à procura na sala?] 

[cinco minutos depois]

- querem fazer os pedidos?

-eu queria mesmo era um copo.

- é que estão a secar.

- mas estão vários virados para baixo ali no balcão?

- exacto, estão a secar. 

- Mmmaaas....

- Deixe-me só tirar o pedido que já o trago.

[outros cinco minutos depois]

- está aqui o seu copo. Quer que lhe sirva vinho?

- se faz favor.

- ah, parece que a garrafa acabou. Vão querer outra?

O nome do restaurante Decadente só pode ser uma homenagem a este empregado de mesa.

 

 

panorama na estrada do guincho, o restaurante para quem tem o nariz entupido

Domingo à noite. Mesa para cinco pessoas. Restaurante remodelado, totalmente às moscas, exceção feita a um “pato bravo” com mais de 100 kg que via ruidosamente um jogo de futebol na televisão enquanto a mulher babava para cima do sofá num sono assustadoramente profundo. De resto, um deserto de mesas e cadeiras e o mar como pano de fundo com um cheiro… nauseabundo. Sim, isso mesmo que acabou de ler: um cheiro a esgoto indescritível. Valeu-me uma valente constipação para conseguir suportar o odor que os solícitos empregados garantiam ter origem nas marés. Há anos que frequento os restaurantes da zona, nunca tal cheiro me tinha passado pelas narinas. Ainda arrisquei perguntar se a culpa não seria das obras de remodelação do restaurante. O coro ensaiado dos empregados e do gerente, “Nãaaoooo! Que ideia!”, esclareceu-me.

O jantar não surpreendeu. Um excelente robalo ao sal, acompanhamentos pagos à parte, como esparregado e arroz de tomate, estupidamente caros, e Santini e a obrigatória mousse de avelã, de sobremesa. Bom mas igual a sempre. Tal como o serviço. Os mesmos empregados da gerência anterior: eficientes, simpáticos, calorosos e com uma excelente memória. Tratam-nos pelo nome e recebem-nos como se não tivessem passado anos… Sim, não ia ao Panorama há alguns anos e sinceramente, não sei se volto tão cedo. A simpatia dos empregados não salvou o meu já debilitado olfato.

O bom – o serviço

O mau – o preço dos acompanhamentos

O péssimo - o cheiro a esgoto durante todo o jantar

 

Um ótimo jantar para si,

Ela

prego gourmet

 

Prego Gourmet

 

Começam os problemas

 

Só uma pergunta: porque é que no início era tudo óptimo e agora já apanhei várias vezes o aipo acastanhado nas pontas? Só outra pergunta: porque é que no início havia cartões de fidelização e agora, há pelo menos duas semanas, que estão “à espera de uns novos cartões digitais que estão mesmo, mesmo, mesmo a chegar”? Deixem lá o digital, o povo quer é o aipo fresco e a refeição oferecida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pág. 1/2